sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Memória

 


MEMÓRIA

A História nos traz exemplos, se aprendemos com eles, é outra coisa.

Quando o mês de agosto mostra a sua cara, uma certa nostalgia invade este professor que vos escreve. Primeiro, busquemos na Geografia uma das explicações para este fenômeno. No Rio Grande do Sul, estado onde nascemos e somos radicados, os meses de junho e julho são especialmente rigorosos trazendo o inverno em toda a sua intensidade. Destaque para o mês que homenageia Júlio César. Mas, nosso objeto de escrita, é o que faz homenagem ao imperador Augustus: agosto. Em um país que tem mais de noventa por cento de suas terras na tropicalidade, nosso estado se encontra na zona temperada, com estações do ano definidas (nem tanto nas últimas décadas), mas com um verão cada vez mais quente e um inverno, por vezes rigorosíssimo. Agosto então, traz sua contribuição com, além da chuva e do frio, um vento insistente que por vezes deprime, em outras irrita. Não descartemos aqui, aqueles que veem um certo charme no mês do primeiro imperador romano, encontrando uma certa animação trazida pelo vento. Importante análise nos traz a geografia neste sentido.

Mas nosso foco é a História. Mais especificamente a memória.

No que diz respeito à memória individual, temos em agosto a referência de nosso aniversário. Para um historiador, a primeira história a ser compreendida e estudada é a sua própria história. O próprio currículo construído por um professor ou pesquisador, é documento histórico. Memória individual.

No caso deste professor, o aniversário nunca teve um caráter de comemoração, e sim de reflexão. Cabe ressaltar, que este vem sempre acompanhado de um sentimento de gratidão pela História. Pela História? Sim. Pela vida. História é vida. Nossa vida é nossa história. Todos os outros aspectos de nossa existência estão registrados em nossa história individual. Em nossa memória individual, guardamos muitos bons momentos e outros não tão bons assim, mas de grande valor educativo.

Mas o que a memória individual terá a ver com a memória coletiva? No caso em que estamos tratando, a reflexão sobre o passado, como aprendizagem no presente e preparação para o futuro. 

O aniversário ao qual nos referimos é dia 7 de agosto. Está no período, em que a memória coletiva, nos traz a cada ano os eventos ocorridos no Japão no final da Segunda Guerra Mundial. Dia 6, a primeira bomba atômica da História em Hiroshima: aproximadamente 80 mil mortes. Dia 9, a segunda bomba em Nagasaki, aproximadamente a metade do número de vítimas, a geografia do lugar contribuiu para que o desastre não fosse ainda maior. Aponta-se que a cidade circundada por montanhas foi de certa forma auxiliada tendo menos vítimas, do que em Hiroshima. Estas montanhas, não deixam de ser monumentos, instrumentos de memória, lembrando que se dependesse dos seres humanos, principalmente estadunidenses e autoridades japonesas, a cidade não existiria mais.

Em Hiroshima, o Parque Memorial da Paz, serve de instrumento de clamor para que não se repitam atrocidades como a que aconteceu na cidade. Com esta finalidade, também foi construído o monumento no local onde ficavam as Torres Gêmeas em Nova Iorque. Outros exemplos poderiam ser citados.

Mais recentemente, estátuas têm sido derrubadas por representarem o inverso. Escravocrata foi lançado ao rio e Colombo perdeu a cabeça, por exaltarem algo, que grupos consideram episódios históricos nocivos para a humanidade. Escreve-se grupos, de forma destacada, justamente pelo fato de a humanidade não ser unânime. Nem sobre o que é ser humano. Parece exagero, sensacionalismo, mas não é. Repetimos, outros grupos consideram tais tragédias, como as que aconteceram (e acontecem) com japoneses, armênios, judeus, africanos, indígenas e tantos outros e principalmente outras, como normais dentro dos contextos históricos. Mal necessário.

Platão entendia a memória como um bloco de cera onde ficavam gravadas nossas memórias. Freud dizia que há parcialidade na memória, pois lembramos o que queremos e somos influenciados pelo externo.

Seja como for, a História é vida. E a vida nos traz exemplos todos os dias, se aprendemos com eles, é outra coisa.

 Ao terminar este texto vem à memória (Olha ela aí gente!) um professor de Física do Ensino Médio que dizia: “a mesma coisa é outra coisa”. Talvez o contrário seja verdadeiro. Não seria, a outra coisa é a mesma coisa? Será que, o que pensamos ser falta de aprendizado com os exemplos, como dos lançamentos das bombas atômicas, não seria na verdade, aprendizagem para alguns grupos, que se identificam e se dedicam a perpetuar o que entendem ser correto ou males necessários? Continuemos nossas reflexões neste agosto, setembro, outubro...                

      Professor Sandro

segunda-feira, 20 de julho de 2020

UM REI NA REPÚBLICA




UM REI NA REPÚBLICA

O Cangaço não foi uma exclusividade da República. O século XVIII já registrava a execução de nordestinos que viviam à margem da lei. Seu hábito de carregar os rifles sobre os ombros, lembrando a canga que era colocada sobre os bois para puxar o arado, se encarregou de torná-los conhecidos como cangaceiros.

Nenhum outro, no entanto, popularizou tanto o cangaço como Virgulino Ferreira da Silva, que se tornou cangaceiro aos vinte e quatro anos e sucessor de Sinhô Pereira na liderança de seu bando em 1922.

A trajetória de fora da lei de Virgulino, começa com uma rixa entre famílias que resulta na morte de um irmão e de seu pai. A partir daí, uma série de crimes compõe o currículo do cangaceiro. São assassinatos, sequestros, roubos, chantagens e estupros.

Conforme Virgulino atuava no sertão, seu mito e sua reputação iam sendo construídos. Se para muitos, seu bando causava medo, para outros, ações do grupo foram sendo romanceadas. Alguns escritores chegaram a justificar sua conduta com a miséria e o abandono do povo nordestino. Para estes, o bandoleiro seria um produto do meio, da seca, da fome e injustiça social. A própria história de sua alcunha, Lampião, traz uma narração mistificada. Segundo ela, Virgulino era tão rápido para atirar com seu rifle, que o cano da arma parecia ficar aceso como um lampião iluminando a noite. E assim foi sendo construída a história daquele que ficaria conhecido como o rei do cangaço.

Estudiosos do tema e biógrafos de Lampião, na sua maioria, não reconhecem em Lampião um objetivo político ou uma causa social. Suas alianças ocorriam conforme a necessidade do bando. Muitos o auxiliavam por medo.

Em 1926 o Rei do Cangaço é convocado pelo governo para enfrentar a Coluna Prestes. Padre Cícero, amigo de Lampião intercede as negociações e no dia cinco de março do mesmo ano, em Juazeiro, no Ceará, recebe a patente de capitão dos Batalhões Patrióticos. A aliança com o governo dura pouco e os rifles automáticos fornecidos ao bando reforça o arsenal para os crimes que se seguem.

Em junho de 1927, um fato começa a mudar a trajetória do Capitão. O grupo de Lampião está no Rio Grande Norte, pronto para atacar a cidade de Mossoró, caso a prefeitura não atenda suas exigências em dinheiro. Ao não ser atendido, cinquenta e três cangaceiros invadem a cidade, mas encontram cento e cinquenta homens bem armados para defender o local. Lampião percebendo as baixas no bando, ordena a retirada. Entre as baixas, está o jovem “Jararaca” de vinte e dois anos, que antes de ser executado é preso tendo tempo para relatar algumas façanhas de seu comandante para o jornalista Lauro da Escóssia, do jornal o Mossoroense. A partir do episódio de Mossoró, a fama de invencível do cangaceiro começa a ser contestada.

A data de nascimento de Virgulino Ferreira da Silva tem controvérsias. O registro civil é de 7 de julho de 1897, em Serra Talhada, a antiga Vila Bela da canção Mulher rendeira, de autoria do próprio Lampião. O fim de sua trajetória foi em 1938, em Sergipe, Porto da Folha, na Fazenda do Angico em 28 de julho. O bando foi cercado pela polícia, que contava com uma metralhadora. Entre os cangaceiros mortos estavam Lampião e sua companheira Maria Bonita. Os mortos foram decapitados e suas cabeças foram expostas em algumas cidades, e depois no Instituto Nina Rodrigues em Salvador. Embalsamadas, as cabeças de Lampião e Maria Bonita só foram entregues para a família em 1969.

O cangaço, não começou com Lampião e também não terminou com ele. O fim chegou em 1940 com a morte de seu amigo Corisco.  

O NASCER DA REPÚBLICA




O NASCER DA REPÚBLICA

 

Desde o final do século XIX o sistema político no Brasil é a república. A cada nova eleição obrigatoriamente os cidadãos aptos vão as urnas escolher seus representantes, aqueles que darão o Norte para todos os aspectos da vida de brasileiros e brasileiras. Não é pouca coisa. O fato de o voto ser obrigatório, passa a noção da grande responsabilidade de cada um e cada uma no processo. O que muitas vezes passa despercebido é a ação política de escolher seus representantes, como um dos grandes direitos adquiridos ao longo da História recente do Brasil como nação e muito mais recente ainda, como república.

Quando Deodoro da Fonseca liderou o movimento da proclamação pela ala militar em 1889, iniciava-se ali, um novo regime, porém, o processo da construção republicana já havia iniciado anos antes com seus propagandistas. E cabe ressaltar, que não encerrou naquele momento. Os republicanos não tinham ideais homogêneos e nem uma convicção com relação ao funcionamento da república.

Outro ponto relevante é com relação a democracia. Preconizar a república, não necessariamente significava defender a democracia. Pelo contrário, a proclamação do novo regime, diferentemente de outros processos do período imperial, não contou com a mínima participação popular. E defensores desta participação como Silva Jardim foram escanteados do processo¹. Deodoro, que é lembrado e homenageado como líder da proclamação, tinha ressalvas até mesmo com relação a participação do Legislativo, defendendo um poder maior para o Executivo.

Com a república vem o sistema dos três poderes, sendo excluído o Poder Moderador, legitimado pela Constituição de 1824, a qual deveria também ser substituída por um modelo condizente com o novo regime. A forma como irá se estruturar a assembleia constituinte e o próprio texto da nova constituição sustentará a ação política dos primeiros anos da República, principalmente no que se refere à autonomia dos Estados: o federalismo.

A autonomia que a República passou para as unidades federativas começa evidenciar a distância existente entre os estados mais ricos em relação aos mais pobres. Estados como Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo chegavam a contar com quase 70% dos deputados².

O poder delegado aos estados consistia entre outras coisas, em contrair empréstimos externos e criação de novos impostos.

Com relação aos municípios, também havia autonomia. Porém, a concentração de recursos fiscais nos estados, fez com que essa autonomia não fosse colocada em prática, assim, chefes locais começaram a comercializar votos em troca de recursos, inaugurando a prática conhecida como coronelismo.             

Decisões importantes foram tomadas no que dizia respeito às eleições. Foi determinado o fim do voto censitário, ou seja, o direito de voto apenas aos cidadãos de melhor renda. Era vetado o voto aos analfabetos. Como a grande maioria da população não era letrada, esta medida tratou de excluir uma parcela significativa da população do processo eleitoral. A idade mínima para votar foi diminuída. Com relação às mulheres, não havia nada que proibisse, mas também não havia nada que garantisse a participação feminina nas eleições. Culturalmente, não era nem cogitada a participação feminina no pleito eleitoral.

Em um sistema onde os estados teriam um grande poder, a forma como foi estabelecida suas representações na assembleia diz muito do que veio a ocorrer nos anos que se seguiram à Constituição de 1891. Foi determinado o número de três senadores por estado e Distrito Federal, contudo, a Câmara seria composta conforme o percentual de eleitores de cada estado. Esta decisão evidenciaria o poder de algumas unidades federativas em detrimento de outras, ainda menos povoadas³.

Outra questão, não menos importante, foi o maior número de constituintes adesitas em relação aos propagandistas. Os primeiros eram aqueles que passaram a aceitar o novo sistema já nos últimos instantes, enquanto os segundos eram os que já há algum tempo defendiam o modelo republicano. Se os propagandistas tinham ideias mais inovadoras para inaugurar a República, os adesistas, na sua maioria militares, eram mais conservadores.

A missão de escolher o primeiro presidente e o primeiro vice-presidente da República, para substituir o governo provisório de Deodoro, também cabia aos integrantes do congresso. Deodoro da Fonseca vence o paulista Prudente de Moraes. E, ainda com mais votos que o próprio Deodoro, o vice da chapa oposta é o escolhido: Floriano Peixoto.  

O andar da nascente república levava a um poder político e econômico das oligarquias. Estruturava-se nos primeiros anos o poder do eixo São Paulo-Minas Gerais, a política Café com leite.

No plano político, o recém eleito presidente Deodoro da Fonseca deixa suas restrições ao Legislativo aflorarem, principalmente a partir do protagonismo assumido pelo congresso com a nova Constituição e busca o caminho de um golpe. Não contando com o apoio das Forças Armadas, renuncia no mesmo ano de sua eleição, deixando a presidência para seu vice: Floriano Peixoto.

No campo social a Constituição republicana traz mudanças significativas como o fim da pena de morte, fim dos privilégios de nascimento, a separação entre o Estado e a igreja, casamento civil e o ensino laico. Fora estes direitos civis, a carta magna atribuía aos estados a promoção de direitos sociais. Tais questões muito pouco evoluíram e alguns estados nem sequer colocaram o assunto em pauta, com o entendimento de que a questão estava resolvida, com o fim da escravidão.   


Memória

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